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Denis Lee.
27 anos. Bacharel em Ciência da Computação.

"Nunca encontrei uma pessoa tão ignorante que não pudesse ter aprendido algo com sua ignorância."
— Galileu Galilei (1564-1642)

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Conselho vocacional.

[…] Pouco depois, Marfa e Grigori informaram Fiódor Pávlovitch de que pouco a pouco ia-se manifestando em Smierdiakóv um nojo terrível: sentado diante do prato de sopa, pegava a colher e ficava procurando e procurando algo na sopa, inclinava-se, examinava, mergulhava a colher e a levantava para a luz.

– Será barata? – chegava a perguntar Grigori.

– Talvez uma mosca – observou Marfa.

O asseado rapazinho não respondia, mas fazia a mesma coisa com o pão, a carne e todas as outras comidas: às vezes, levantava no garfo uma fatia contra a luz, examinava com precisão microscópica, demoradamente, cozinhava a decisão e finalmente se decidia a encaminhá-la à boca. “Vejam só, apareceu aqui um senhorzinho” – resmungava Grigori, olhando para ele. Ao ouvir falar nessa nova qualidade de Smierdiakóv, Fiódor Pavlovitch resolveu no ato que ele deveria ser cozinheiro e o enviou para uma escola de Moscou. Ele passou alguns anos estudando e voltou muitíssimo modificado de rosto. Súbito envelhecera de forma um tanto incomum, ficara enrugado de modo até totalmente desproporcional à sua idade, amarelo, parecendo um eunuco. Em termos morais, voltara quase o mesmo que era antes de partir para Moscou: continuava igualmente insociável, sem sentir a mínima necessidade de qualquer companhia. Como se soube depois, em Moscou ele vivera sempre calado; de certo modo, a própria Moscou o interessara pouquíssimo, de sorte que, se conhecera na cidade alguma coisa, não dera atenção da todo o restante. […]


Esse é um trecho do livro “Os irmãos Karamázov”, de Fiódor Dostoiévski. Para aqueles que já leram o livro, sabem como termina o desfecho do Smierdiakóv em sua peregrinação como cozinheiro, no entanto, quero destacar algo que me chamou a atenção nessa passagem do livro; ou seja, de como a nossa cultura popular (i.e., senso comum) muitas vezes erra ao (tentar) auxiliar alguém na identificação de um talento especial (ou que ele julga especial quando, na verdade, não diz nada ou que ele não está qualificado a fazer tal avaliação).

Durante a conversa com minha (recente) amiga – que conheci em minha nova igreja –, eis que ela inicia alguns questionamentos sobre a arte, história e literatura. Interessei-me e assim iniciou uma longa conversa. Conversa vai, conversa vem, até que chegamos a discutir o curso na faculdade que cada um realizara. Ela revelou que havia iniciado o curso de direito, no entanto, ficou tão insatisfeita com o curso que parou o mesmo e realizou novamente o vestibular. Obviamente que questionei o motivo de tamanha insatisfação. Bem, para a minha surpresa foi exatamente um evento parecido do Smierdiakóv que ela sofrera. Ela descreveu o seguinte: indecisa de qual curso prestar juntamente com a pressão da data do vestibular, acabou por aceitar uma sugestão aleatória. Observaram (não sei quem exatamente, ou quais pessoas) que ela possuia afeição por livros, por esse motivo sugeriram o curso de direito para ela. Sem muito tempo para decidir, acabou por optar esse curso; que todos nós já sabemos o seu desfecho: desistência.

Pessoas acabam tomando esse rumo pelo julgamento errado que nos oferecem através da percepção popular, por exemplo: você lê muitos livros? Você devia fazer o curso de direito. Você consegue ficar horas e horas na frente do computador? Você devia fazer o curso de Ciências da Computação. Você não sabe o que fazer? Você devia fazer administração. Você mede mais de dois metros de altura? Você devia praticar basquete ou vôlei. Você tem dentes limpos? Você devia fazer odontologia. Você está descalço na praia? Você devia ser mendigo. Você comprou fogos de artifício para festejar em Junho? Você devia planejar uma série de atentados terroristas daqui a dois meses em Los Angeles.

Sei que temos paradigmas em nossas mentes e é natural que isso ocorra em qualquer lugar (tanto aqui no Brasil como na Rússia), porém pensar um pouco antes de realizar uma sugestão tão leviana assim não custa muito, custa?

Poizé, melhores das intenções com o pior dos resultados. ;p

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