Iracema.
Depois de ler dois livros científicos seguidos, com certeza, eu necessitava de algum outro tipo de livro para ler. Com essa premissa o próximo livro escolhido foi: “Iracema” de José de Alencar. Aliás, não só por esse motivo que me levou a escolher o mesmo, porém eu já estava planejando ler “Dom Casmurro” de Machado de Assis. Mesmo com outro livro na fila de espera, vi o livro de José de Alencar sobre a minha mesa e pude constar que era curtíssimo e poderia ler rapidamente antes mesmo de pegar “Dom Casmurro” com a minha guia oficial do mundo da literatura. Apesar de alguns imprevistos (e.g., de ter demorado o dobro do tempo estimado – dois dias –), consegui termina-lo a tempo. (:
Doravante, já sabe, né? Escreverei as minhas singelas observações sobre passagens interessantes do livro (através do meu humilde julgamento), portanto poderá acarretar em estragar o prazer de um possível futuro leitor que tenha interesse em ler essa obra. Dito isso, que comecem meus comentários! Afinal, o grifo é meu! HIHI.
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“– É a presença de Iracema que perturba a serenidade no rosto do estrangeiro?”; capítulo 6.
Logo no começo já notei que o senhor José gosta que os índios falem em terceira pessoa. Bem, quem sou eu para duvidar se os tais índios (especificamente daquela tribo) falam dessa maneira. Porém, percebi que o Martim – o estrangeiro – também começa a falar dessa maneira, o que não foi muito agradável na leitura; pois comecei a confundir o autor das falas. Não sabia se era o índio que estava falando ou o estrangeiro.
O mais interessante é que isso acontece na vida real também. Por exemplo, quando alguém fala penosamente um português arrastado para nós, costumamos responder da mesma forma, quase que de maneira involuntária. Acredito que isso ocorra pelo fato de inatamente procurarmos ter maior empatia com o outro interlocutor. Isso explica do por que os pais parecem retardados quando falam com seus bebês ou algo do gênero. (:
“Martim sorriu do ingênuo desejo da filha do pajé.”; capítulo 6.
Filha do pajé nesse caso é a Iracema – a índia virgem até certo ponto da história. Hehe. –, só para constar. Visto isso o autor transparece a sua crença filosófica sobre o bom selvagem. Em muitos pontos do livro a jovem Iracema é referenciada com “a virgem” e com atitudes típicas de uma criança ingênua. Porém, acredito que isso seja uma falácia, porém explicável. Autor viveu entre os anos 1829 e 1877, não existiam muitos estudos sobre a mente humana, por esse motivo muitos dogmas e axiomas quiméricos passeavam entre as crenças da natureza humana. Todavia, já que é uma historinha prosaica e lírica, perdoarei o romancista. HIHI.
O mais engraçado é que adoram deturpar lendas para iludir a veracidade do bom selvagem. Disney adora fazer isso com suas histórias infantis alteradas como, por exemplo, o desenho “Pocahontas”.
“Quem seus olhos primeiro viram, Martim, estava tranquilamente sentado em uma sapopemba, olhando o que passava ali.”; capítulo 10.
Agora eu sei o que é uma “sapopemba”. É o nome dado a cada uma das raízes que formam divisões tabulares em torno da base do tronco de certas árvores. (:
A obra contém muitas referências a nome de plantas e bichos diferentes, visto essa grande biodiversidade, pude aprender novas palavrinhas. Oh sim!, esse foi um dos motivos na demora de minha leitura, tive de fazer inúmeras consultas no dicionário e internet para saber de que planta ou animal o autor estava se tratando. Muito bacaninha.
“[Iracema diz] – Teu corpo está aqui; mas tua alma voa à terra de teus pais, e busca a virgem branca, que te espera.”
“[Iracema diz] – Quando tu passas no tabuleiro, teus olhos fogem do fruto do jenipapo e buscam a flor do espinheiro; a fruta é saborosa, mas tem a cor dos tabajaras; a flor tem a alvura das faces da virgem branca. Se cantam as aves, teu ouvido não gosta já de escutar o canto mavioso da graúna; mas tua alma se abre para o grito do japim, porque ele tem as penas douradas como os cabelos daquela que tu amas!”
“[Martim diz] – Tua voz queima, filha de Araquém, como o sopro que vem dos sertões de Icó, no tempo dos grandes calores. Queres tu abandonar teu esposo?”
“[Iracema responde] – Vêem teus olhos lá o formoso jacarandá, que vai subindo às nuvens; a seus pés ainda está a seca raiz da murta frondosa, que todos os invernos se cobria de rama e bagos vermelhos, para abraçar o tronco irmão. Se ela não morresse, o carandá não teria sol para crescer àquela altura. Iracema é a folha escura que faz sombra em tua alma; deve cair, para que a alegria alumie teu seio.”
“O cristão [(i.e., Martim)] cingiu o talhe da formosa indiana e a estreitou ao peito. Seu lábio levou ao lábio da esposa um beijo, mas áspero e amargo.”
Todas essas citações são do capítulo 28, que por sinal eu acredito que seja o capítulo mais interessante de todo o livro. Ele expressa com realidade o que acontece em toda relação amorosa do ser humano: discutir o relacionamento. Sempre existiu isso e sempre existirá.
Iracema começa a ficar insatisfeita com o relacionamento, pois descobre de maneira tácita que Martim está com outros interesses. Apesar de esse meu grifo destacar a maneira poética na fala da índia, fica visível como as mulheres adoram reclamar sobre os problemas do relacionamento; ou seja, de maneira indireta. Nunca falam diretamente para o homem, para que o mesmo possa descobrir por si só através dessas dicas que são óbvias para elas, porém quase invisíveis para o homem. Nesse caso, porém, Martim sabe do que ela está falando e tenta esconder ao máximo; lembrando de maneira semelhante a técnica utilizada pelo nosso atual presidente Lula, quando tenta explicar algo de errado em seu governo.
Martim está agindo de maneira puramente masculina e verídica nesse trecho também. Aparenta nem um pouco satisfeito com as reclamações de sua amada e começa a mentir apenas para tentar acabar o mais rápido possível essa discussão que (para ele) aparenta ser frívola. Isso tudo fica muito claro quando ele termina a discussão com um beijo áspero e amargo.
“– Tu és Moacir, o nascido de meu sofrimento.”; capítulo 30.
Talvez Machado de Assis tenha razão ao dizer que Alencar é um feliz criador de figuras femininas com originalidade e delicadeza. Porém, eu não gostei da Iracema.
Nessa citação, por exemplo, demonstra a depressão máxima da índia. Ela simplesmente perdeu a sua vida para entregar ao marido, o que não pode acontecer em relacionamentos reais; não se pode depender inteiramente do marido para sobreviver. Muitas mulheres e garotas (em seu primeiro relacionamento, principalmente) cometem esse erro de largar absolutamente tudo para viver em função de outra pessoa. Porém, quando o fogo da paixão acabar ela sairá do estado letárgico ilusório para uma realidade onde estará ermo. Então a depressão, o sofrimento dominará a sua vida.
Pobre Iracema abandonou sua família, amigos, profissão para ficar com um branco. Aí quando o branco foi para a guerra, ela não tinha absolutamente mais nada; devido a isso, acabou morrendo, pois nem o filho tinha o real valor na ausência do marido. Para ver até onde chegou tamanha depressão. HIHI.
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É isso, bacaninha e bem curtinho; mas to cansado de procurar palavrinhas no dicionário. (:
