Cultura da Convergência
Terminei de ler o livro “Cultura da Convergência”, de Henry Jenkins. Vamos explicar o motivo da escolha desse livro. O principal motivo que me levou a ler esse livro foi uma twittada de uma pessoa. Ela elogiou esse rapaz e eu já tinha conhecimento que ele escrevera um livro sobre um assunto de meu interesse: o comportamento da mídia atual.
Oh sim.
Marshall McLuhan disse que o processo tecnológico estava transformando todo o planeta, reduzindo-o às proporções de uma aldeia. Mas só agora, quando as novas mídias começam a fazer com que o público deixe de ser apenas receptor de informações, este conceito parece fazer sentido. E tudo ganha dimensões maiores quando esse mesmo público também está apto a transmitir conhecimento.
Henry Jenkins, um dos pensadores das mídias mais respeitados dos Estados Unidos, investiga o alvoroço em torno das novas mídias e expões as importantes transformações culturais que ocorrem à medida que esses meios convergem. Ele nos leva ao mundo secreto dos spoilers de Survivor, ávidos usuários da internet que compartilham conhecimento para desvendar os segredos do programa de TV. Ele nos introduz aos jovens fãs de Harry Potter, que estão escrevendo suas próprias histórias sobre Hogwarts, enquanto os executivos da Warner Bros. se debatem para controlar a franquia. Ele nos mostra como o fenômeno Matrix levou a narrativa ficcional a novos patamares, cirando um universo em que os consumidores vão atrás de partes da história em múltiplos canais de mídia.
A cultura da convergência é um fenômeno que está revolucionando o modo de se encarar a produção de conteúdo em todo o mundo. Todos os modelos de negócios e ela relacionados também estão sendo revistos. Não por acaso, este é o livro que cabeceira dos grandes pensadores de mídia do planeta, que, mais do que nunca, precisam se reinventar a cada dia.
(Como de praxe, não darei muitas explicações em relação ao livro, vou apenas jogar aqui as minhas observações dos trechos do livro que me chamaram a atenção. Em suma, apenas algumas reflexões que fiz ao ler as idéias e fatos apresentados pelo autor. Talvez não seja interessante alguém que não ler o livro ver as minhas observações esporádicas e aleatórias acerca do livro. Pode boiar. Sério! Hihihi.)
(pg. 40) Nesse trecho introdutório o autor apresenta a tal da “Falácia da Caixa Preta”. A falácia diz que em um futuro breve todos os aparelhos eletrônicos que temos em nossa sala de estar convergirá em uma única caixa preta. No entanto, o autor diz que na sala dele cada dia que passa aparecem mais caixas pretas, sendo esse fato exatamente o oposto do que a “Falácia da Caixa Preta” previa.
Definitivamente consigo testemunhar exatamente essa mudança em minha sala, de forma idêntica que o autor apresenta. Muitas pessoas já foram levadas a acreditar nessa falácia, pois ela racionalmente - em um mundo ideal/utópico - seja plausível. Porém, não podemos esquecer que temos a concorrência e muitas empresas estão querendo colocar as suas caixas na casa de todos os consumidores. Só ver o fato dos videogames, dificilmente existirá apenas um videogame que conseguirá executar todos os jogos. Então, necessariamente, teríamos um videogame na sala de cada empresa caso queiramos acompanhar todos os jogos, fazendo assim a multiplicação das caixas pretas.
(pg. 55) Existe uma citação muito interessante do Lévy, ele diz: “O conhecimento de uma comunidade de pensamento não é mais conhecimento compartilhado, pois é impossível um único ser humano, ou mesmo um grupo de pessoas, dominar todo o conhecimento, todas as habilidades. Trata-se, fundamentalmente, de conhecimento coletivo, impossível de reunir em uma única criatura.”.
Essa parte do livro cita um grupo de usuários de internet que se reuniam em um site para tentar prever o que aconteceria nas temporadas de um reality show chamado “Survivor” (aqui no Brasil existiu um programa semelhante, chamava-se “No limite”). Foi delegada uma responsabilidade para cada pessoa da comunidade de acordo com as suas habilidades. Isso faz a comunidade um organismo bem mais poderoso em relação a apenas uma pessoa sozinha tentando decifrar as pistas deixadas pelo programa de TV e assim deduzir os episódios futuros.
Isso é sensacional, uma vez que com o crescimento do conhecimento humano se tornou algo impossível de ser adquirido por uma só pessoa, ainda sim é possível existir uma “pessoa” que pode possuir boa parte dos conhecimentos. Hoje chamamos essa “pessoa” de comunidade. Achei fantástico.
(pg. 81) Ainda no tema da comunidade de spoilers do programa “Survivor”, para os mais céticos ainda existiria a possibilidade de fraude grande, prejudicando muito a capacidade investigatória do grupo. Porém, nessa página existe uma argumentação boa contra essa possibilidade. Mesmo que apareça alguém para deturpar e inventar alguns fatos, convencer uma comunidade grande e fazer com que a mentira sobreviva por uma chuva de questionamentos de todos é difícil. Essa é a grande vantagem de ter uma comunidade firme, com seguidores fieis, dessa forma fica difícil dela se fragilizar perante a uma mentira.
(pg. 106) Aqui capítulo é sobre o programa “American Idol” da TV americana (no Brasil, como todos devem saber, chama-se “Ídolos”). O autor apresenta como é importante a empresa ganhar o consumidor pelo sentimento e não apenas seduzir pelo lado racional. As pessoas não querem assistir para prestigiar a marca “American Idol” e muito menos o canal que é transmitido a esse programa; elas querem prestigiar o cantor, criam empatia com o cantor, sentem como se estivesse no lugar dele e torcem para que ele consiga vencer. Essa paixão, esse vínculo humano que as empresas exploram nas pessoas, fazendo com que assistam a TV e ao programa.
Não para por aí, mas outras empresas pegam carona e associam a marca nesse programa, fazendo com que as pessoas também criem vínculo emotivo com essas marcas que patrocinam o programa. Como a Coca-Cola que patrocinou boa parte das transmissões do “American Idol”.
Sei que não deve muita novidade (bem, pelo menos não é novidade para mim) de ver empresas procurando influenciar consumidores pelo lado afetivo. Isso é bem visível ao ver comerciais de carros que simplesmente tentam colocar você dentro do carro para ter a sensação de dentro do veículo, ou quando empresas tentam patrocinar obras de segurança, para que associem a segurança com a marca.
(pg. 107) Um dado interessante que o livro cita é que apenas o grupo de 20% de pessoas super fieis a marca, consomem 80% dos produtos da empresa. Incrível.
(pg. 135) Já no capítulo 3 do livro (o capítulo mais importante do livro inteiro), ele explica finalmente o significado da palavra “transmidiática” e dá um exemplo claro de um produto que utilizou essa ferramenta, trata-se do filme “The Matrix”. No caso do “The Matrix”, os autores do filme não se limitaram apenas às telas de cinema para contar a trilogia (i.e., o filme todo), utilizaram também de outras mídias para dar continuidade da narração de Matrix (fragmentando ainda mais o filme).
Você pode pensar: “poxa, mas isso é algo super comum, chama-se merchandising.”, todavia, é diferente. Quando um produto é licenciado para outra empresa lançar um outro produto utilizando à temática do filme, apenas copia o que já é de conhecimento de todos e não acrescenta nada na narrativa do filme. Em suma, no máximo que você pode ter é um boneco de um personagem que aparece no filme, sendo que isso não acrescenta nenhuma informação do filme que você já viu nas telinhas. Porém, todas as outras informações passadas através de outras mídias do filme “The Matrix” foram essenciais para entender e acompanhar por completo a trilogia completa do filme (i.e., ver o quadro completo). Por exemplo, entre o primeiro e o segundo filme da trilogia eles lançaram muito material na internet (i.e., Animatrix – desenhos japoneses como se fossem “extras” do filme) que acrescentaram informação ao filme, não eram apenas como os bonecos que nada acrescentariam ao filme.
Não para por aí, esses “extras” na trilogia, eram essenciais para entender a continuidade dos outros Matrix. Foi sensacional o que os autores desse filme fizeram.
Isso explica o motivo de muitas pessoas gostarem do primeiro “The Matrix” e não gostarem dos outros. O primeiro você não necessitava ter bagagem alguma dos extras, o filme era o primeiro pedaço de informação completíssima para ser assistido. Já os outros filmes da trilogia você necessariamente precisava ter assistido os extras na internet e ter jogado os jogos do filme para entender o restante da trilogia. Detalhe que a série Matrix não acabou nos cinemas, verdadeiro fim foi no game online do filme.
(pg. 142) Ainda na onda do “Transmidiático”, existiu um filme que todos assistiram que utilizou dessa técnica fantástica também (na realidade, existiram vários filmes que utilizaram esses extras essenciais para entender o filme, onde as pessoas pensavam que eram apenas material de merchandising para divulgação do filme). No filme “A Bruxa de Blair”, antes mesmo do lançamento do filme os autores criaram um site com a lenda da bruxa. Cada dia que passava eles colocavam mais pistas a respeito da existência dessa bruxa e deixavam que os visitantes estudassem as provas, gravações em áudio, fotos e documentos scanneados. Só então eles lançaram o filme que foi um sucesso.
Muitos dos meus amigos odiaram o filme, pois não entenderam nada. Obviamente que era de se esperar isso, pois a mídia extra que foi divulgada antes do filme era necessária para poder entender o filme. Para eles foi como assistir o filme da metade para o fim, não conseguiram pegar o filme todo (apesar de assistir integralmente o filme na telinha do cinema).
(pg. 148) Outro produto que utilizou dessa façanha do transmidiático, foi as licenças do Pokemón. As crianças não ficavam restritas apenas ao anime, elas conseguiam mais informações da infinidade de pokemóns em outras mídias diferentes, como os jogos de Nintendo DS (e GBA), jogos de carta entre outras fontes de mídia. Lembre-se que esse tipo de mídia não é apenas uma cópia do que se passava no desenho, essas mídias acrescentavam informações de pokemóns que o desenho por si só não explicava. Em suma, outra narrativa transmidiática fantástica. Achei sensacional e isso que fez o Pokemón um grande sucesso.
(pg. 159) Aqui nessa página existe uma citação fascinante, veja: “Quando comecei, era preciso elaborar uma história, porque, sem uma boa história, não havia um filme de verdade. Depois, quando as seqüências começaram a decolar, era preciso elaborar um personagem, porque um bom personagem poderia sustentar múltiplas historias. Hoje, é preciso elaborar um universo, porque um universo pode sustentar múltiplos personagens e múltiplas historias, em múltiplas mídias.”
Veja como é fantástico! Você criar um personagem para contar uma história é uma maneira de transmitir uma informação interessante para o público, porém, imaginem criar um universo as possibilidades que você possui de transmitir uma informação interessante. Simplesmente é infinita. Um bom exemplo de universo são as histórias em quadrinhos que possibilitam exatamente essa visão da possibilidade de criar múltiplas histórias. Aliás, “Senhor dos Anéis” é fantástico, não? Agora sabemos o motivo.
(pg. 254) Nesse trecho do livro fala sobre a posição contrária de algumas igrejas em relação aos livros do personagem “Harry Potter”. Uma igreja chegou a queimar esses livros, com a justificativa que esses livros incentivavam crianças com mentes vulneráveis para a introdução ao ocultismo.
O livro mostra a atitude dos dois lados, cristãos que são contra o uso do livro nas escolas e outros cristãos que estimulam a leitura. O mais interessante é que todos que condenaram o livro, nenhum leu. Já tive a infelicidade de conhecer pessoas que julgam de forma errada jogadores de RPG, ou aqueles que fazem Cosplay. Condenam como se fossem pessoas demoníacas que venderam suas almas para o diabo. Acontece que jogadores de RPG (live action ou até mesmo de mesa) às vezes se fantasiam e existe sempre um “mestre” para guiar e controlar as aventuras e só com essas poucas informações os chamados “cristãos” querem julgar condenar essas atitudes e brincadeiras, sendo que nunca participaram de nada disso. Eu já participei e digo que não tem nada de errado. São decepcionantes as pessoas que fazem esse tipo de julgamento apenas porque determinada pessoa andou vestida como se fosse um vampiro ou com uma varinha do Harry Potter.
Pior quando pessoas têm a certeza que certos assassinatos foram influência dos amigos que jogavam RPG. Algo semelhante a isso é dizer que jogos de FPS (e.g., Counter-strike) incentivam as crianças a matarem outras crianças nas escolas americanas.
O livro é ótimo (principalmente o capítulo 3) e recomendo para todos que tem interesse em saber como a mídia se comporta nos dias de hoje. Henry Jenkins possui uma visão muito boa do que está acontecendo e uma ótima habilidade de descrever um prognóstico provável.
É isso. Não deixei todas as minhas observações, muitas das minhas marcações foram deixadas no livro apenas com o objetivo de consulta futura.
Adorei. (:
