denislee


Denis Lee.
27 anos. Bacharel em Ciência da Computação.

"Nunca encontrei uma pessoa tão ignorante que não pudesse ter aprendido algo com sua ignorância."
— Galileu Galilei (1564-1642)

www.flickr.com

1984

Demorei! Mas finalmente terminei o livro “1984”, de George Orwell. A causa da demora foi devido à falta de tempo, que aparentemente foi consumida por jogos esporádicos de PS3 (para os mais curiosos o jogo é “Fat Princess”, que dá para jogar online). Conquanto, consegui terminar completamente o lindo livro.

Motivo da leitura desse livro é um tanto óbvio. Desde o dia que terminei de ler “Laranja Mecânica”, de Anthony Burgess, fiquei doidinho para ler “Admirável Mundo Novo” e “1984”. Todos esses livros descrevem utopias negativas e se tornaram um clássico na literatura. E claro, obviamente que esse livro muito me agradou.

Oh sim.

1984 é uma das obras mais influentes do século XX, um inquestionável clássico moderno. Publicado em 1949, quando o ano de 1984 pertencia a um futuro relativamente distante, tem como herói o angustiado Winston Smith, refém de um mundo feito de opressão absoluta. Em Oceânia, ter uma mente livre é considerado crime gravíssimo, pois o Grande Irmão (Big Brother), líder simbólico do Partido que controla a tudo e a todos, “está de olho em você”.

No íntimo, porém, Winston se rebela contra a sociedade totalitária na qual vive: em seu anseio por verdade e liberdade, ele arrisca a vida ao se envolver amorosamente com uma colega de trabalho, Júlia, e com uma organização revolucionária secreta.


Antigamente (i.e., pouco tempo atrás) eu tinha o costume de comentar se gostei do livro ou não e não fazia uma crítica comentada por trechos do livro (com o objetivo de preservar o suspense para o futuro provável leitor desse livro). No entanto, agora decidi comentar cada trecho que me chamou a atenção. Enfim, não é interessante você que não leu o livro prosseguir com a leitura do meu post doravante. Hihihi. Obrigado.

(pg. 57) Um detalhe que eu reparei foram os departamentos que a Oceânia tinha para controlar e produzir, literatura, música, teatro, entretenimento, jornais contendo esportes, crimes, astrologia e romances, tudo isso sem a menor qualidade e sensacionalistas. Achei isso muito curioso. Primeiramente veio o pensamento que a China funcione dessa maneira. Só ver os noticiários onde a China sempre tenta restringir o acesso à internet de seus moradores, isso é mais do que prova de tentativa de manipulação. Não só a China, mas também a Coréia do Norte. Porém, apesar disso parecer óbvio, pude notar que isso se assemelha a realidade que vivemos hoje. Não é comum aqui no Brasil querer manipular a mentalidade e a capacidade de raciocínio da massa, seja com notícias fúteis quando problemas graves estão acontecendo ou com esportes levianos onde momentaneamente a população se torna patriota. Falando nisso, ainda acredito que o futebol aqui no Brasil seja o ópio do povo. Hihihihi. Brincadeirinha.

(pg. 62) Winston trabalhava no Ministério da Verdade (i.e., da Mentira) e o trabalho dele era modificar as notícias passadas e atuais. Em um determinado ponto do livro (logo no começo, para ser mais específico) ele precisa criar um artigo para a revista Time. Para realizar esse trabalho, ele cria um personagem de nome Ogilvy e toda uma história por trás desse personagem. Nesse momento fiquei perturbado, pois praticamente nos dias de hoje possuímos uma facilidade enorme de manipular a verdade. Podemos criar personagens fictícios e inventar histórias que podem possuir o poder de mudar a mentalidade das massas. Na internet mesmo criam personagens para ludibriar as pessoas. Lembro daquele caso onde uma garota fingia ter um videolog quando na realidade era apenas uma contratada de uma empresa grande, ou até mesmo aqueles virais criados de maneiras verossímeis (posso citar vários exemplos aqui: Ronaldinho chutando diversas vezes na trave, celular que pode estourar pipoca, tobogã gigante que o homem usou para cair em uma piscina a uma distância enorme). Sei que o intuito aqui pode ser únicamente para propaganda, mas quem garante que não possam utilizar desse recurso para o maligno? Aliás, de que maneira os políticos aqui em nosso país demonstram o seu plano de governo?

(pg. 67) Syme, colega de Winston começa a falar sobre o novo dicionário que o Partido está criando. Diz que muitas das palavras da velhafala serão expurgadas e com isso o novo glossário da novafala ficaria mais restrito em relação à velhafala. Isso a primeira vista demonstrou praticidade aos meus olhos, porém ao pensar um pouco mais pude perceber que pode ser utilizado para a perversão, dominação e poder. O vocabulário de uma língua é muito importante não só para embelezar um texto e criar mais flexibilidade ao expressar alguma idéia, mas também para o raciocínio humano. Afinal, usamos de palavras para pensar e se não pensarmos não teríamos muita diferença dos animais irracionais, correto? Pois com esse principio que o Partido utiliza da ferramenta das palavras para manipular as pessoas na Oceânia, dessa forma conseguem não só restringir o número de palavras, mas restringem idéias que podem ser contra o Partido, os chamados pensamentocrime. Nesse trecho, pude mais uma vez entender o motivo de quão valorosa se torna a língua de um povo e do motivo da língua dizer tanto da cultura do povo que a utiliza. (Por exemplo, se não existe referência para determinado objeto ou situação, significa que aquele objeto e situação não fazem parte daquela cultura.) (Ainda pretendo escrever um post sobre o valor que possui ter um profundo conhecimento da língua.)

(pg. 76) Em uma determinada parte do livro Winston começa a desconfiar da comida pela primeira vez. Sabe que o gosto é terrível da comida (afinal, aparentemente o seu paladar não conseguiu se acostumar mesmo depois de muito tempo), porém começa a questionar se a comida sempre fora assim antes mesmo dele nascer (ou mesmo quando ele era pequeno). Vi que a quebra de paradigmas começa com os questionamentos, a partir do momento que Winston começa a questionar sobre as coisas que se torna alguém diferente de todos os membros do Partido. Acredito que a curiosidade seja algo inerente ao homem e isso é uma característica que torna as pessoas humanas também. Isso é possível ver quando essa curiosidade dele o faz sair da zona de conforto (ou eu deveria chamar de zona de sofrimento) e busca por respostas, começa a praticar crimes. Essa característica do ser humano é tão importante que no fim do livro, Winston que já fora condicionado a amar o Grande Irmão pelo tratamento que recebeu no Ministério do Amor, é quando ele perde a curiosidade, acha tudo tão normal através do duplipensamento. Em suma, deixa de ser humano.

(pg. 80) Parsons com a sua idiotice comenta com Winston sobre a sua filha que estava tendo um progresso tremendo em relação à manipulação pelo Partido. Ele conta o episódio que sua filha conseguira um instrumento para escutar através das paredes, ou seja, trabalhar cada vez mais pelo Partido, mais pelo Grande Irmão. Nessa cena pude ver algo comum que acontece em nosso mundo contemporâneo. Por exemplo, no filme “Diamante de Sangue” pegam crianças para revolução, pois com elas a lavagem cerebral é muito mais fácil, assim como a distorção da imagem paterna (i.e., relação familiar) que ainda está sendo definida, ao passo que caso fosse necessário fazer essa transformação em uma pessoa já adulta, seria um processo mais, complicado, doloroso e demorado (como aconteceu com o Winston, assim que foi pego). Não só em revoluções políticas que é possível usar a fragilidade das crianças (já adulto somos frágeis, imagine as crianças), mas para vender produtos no mundo capitalista, como foi demonstrado no documentário “The Corporation”. Falando nisso, acha ético fazer propaganda de brinquedos na TV? Eu não.

(pg. 84) No livro deixa claro que o Partido quer quebrar qualquer relação humana, sendo que todo afeto deva ser transferido para o Grande Irmão (tanto que é essa referência familiar “irmão” não é de bobagem). Por esse mesmo motivo toda a relação sexual deveria ser unicamente para gerar filhos, como se fosse uma obrigação. Liberando assim qualquer tipo de afeição entre as pessoas e evitando assim qualquer problema para o Partido.

(pg. 132) Quando a Júlia manda um bilhete discretamente para o Winston, escrito “amo você.”, achei sensacional. Todas as incertezas que predominam a mente de Winston nesse momento aparentam bem reais a realidade que vivemos. Nesse ponto acredito que muitas pessoas conseguiram se sentir no lugar dele e ver o personagem mais humano (pelo menos eu consegui). Adorei.

(pg. 140) Durante todo esse romance (pelo menos boa parte do começo) entre a Júlia e o Winston, fica claro que Júlia é quem toma o controle da relação. Isso é demonstrado através da iniciativa que partira dela, de todos os planos que partira dela também. Demonstra também que Winston é apenas um banana e nunca toma iniciativa nenhuma. Talvez ele seja apenas uma nerd lifeless (como eu). Hihihihi.

(pg. 220) Na metade de livro, onde existem trechos do livro de Emmanuel Goldstein, explica exatamente do motivo da citação “Guerra é paz”. Aparentemente interessante, pois podemos colocar essa questão nos dias atuais também. Por exemplo, veja quando os EUA atacam algum lugar (o que não é muito raro) com o seu poderio militar, afinal, com qual objetivo o fazem? Não seria para gerar paz? Porém, toda guerra geram mortes, será que com a “justificativa”, ou seja, com o fim de manter a paz futuramente, podemos matar pessoas no presente? Esse é o ponto central tocado no livro “Crime e castigo”, de Dostoievski.

(pg. 236) Assim que Winston termina de ler um trecho do livro, causa fascínio. Não pelo fato do livro dizer algo que ele não sabia, mas pelo fato de descrever sistematicamente o que ele já sabia. Exatamente essa mesma sensação que eu tive quando comecei a ler os livros.  Quando me deparei com todos eles e quanto mais lia, mais pude lograr dessa sensação de fascínio. Normalmente (honestamente, quase todas às vezes mesmo) aparentemente o livro já descrevia algo que eu sabia exatamente (ou tinha muita desconfiança, por exemplo, de algum tema que eu estava pensando faz muito tempo atrás) e encontrava lá, descrito sistematicamente a idéia totalmente clara e com referências onde eu poderia tomar como base as minhas teorias e suposições.

(pg. 291) Após muita tortura que Winston passou no Ministério do Amor, O’Brien faz o seguinte questionamento para ele: “Por acaso o passado existe concretamente no espaço?”. Winston então responde que existe através de documentos e da memória das pessoas, só dessa forma era possível rever o passado (i.e., trazer o passado para o presente e se fazer existente). Considero isso como uma verdade, sendo os documentos possivelmente modificáveis, só nos resta à memória, correto? Aqui no Brasil as pessoas têm uma péssima memória quando o assunto é política, então…?

Bem, essas são as pequenas observações que gostaria de fazer a cerca do livro. Obviamente que não é exatamente tudo que eu gostaria de comentar sobre o mesmo, porém uma boa parte já está aí descrita.

Recomendadíssimo. (:

Comments
blog comments powered by Disqus