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Denis Lee.
27 anos. Bacharel em Ciência da Computação.

"Nunca encontrei uma pessoa tão ignorante que não pudesse ter aprendido algo com sua ignorância."
— Galileu Galilei (1564-1642)

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Capitães da Areia

Terminei de ler “Capitães da Areia”, de Jorge Amado. E obviamente que vamos ter o nosso rápido review pelo Denis Lee. Antes de tudo…

Capitães da Areia é talvez o romance mais influente de Jorge Amado. Clássico absoluto dos livros sobre a infância abandonada, assombrou e encantou várias gerações de leitores e permanece hoje tão atual quanto na época em que foi escrito.

A história crua, comovente, dos meninos pobres que moram num trapiche abandonado e vivem de pequenos furtos golpes, aterrorizando a cidade de Salvador, causou impacto desde o lançamento, em 1937, quando a polícia do Estado Novo apreendeu e queimou em praça pública inúmeros exemplares do livro, entre outras obras do autor.

Longe de manifestar piedade ou condescendência por suas pequenas criaturas, Jorge Amado as retrata como seres dotados de energia, inteligência e vontade, ainda que cerceados pelas condições sociais hostis em que estão inseridos.

Do valente líder Pedro Bala, com o rosto atravessado por uma cicatriz de navalha, ao carola Pirulito, que reza todas as noites para purgar seus pecados; do sensato Professor, o único inteiramente letrado do grupo, ao sedutor Gato, aprendiz de cafetão, cada um desses meninos tem sua personalidade, sua concepção de mundo, seus sonhos modestos.
Entre o mar e a cidade, batendo carteiras, praticando golpes engenhosos, realizando pequenos furtos, descobrindo o amor das mulheres (e de outros homens), os Capitães da Areia crescem e se tornam homens ao longo deste autêntico romance de formação.

A pequena comunidade dialoga com todo tipo de influência: do padre José Pedro, que os acoberta enquanto tenta regenera-los; do capoeirista Querido-de-Deus, que os contrata para serviços escusos; do militante comunista João de Adão, que busca desperta-los para a luta política.

Os destinos dos Capitães da Areia também serão variados: uns morrem de doença ou de tiro, um vira artista, outro revolucionário, a maioria insiste na via do crime. Com sua prosa repleta de verve e humor, Jorge Amado nos torna íntimos de cada um desses personagens singulares e nos contagia com sua obstinada gana de viver.1


[Doravante não me importarei em revelar trechos da história de “Capitães da areia”, portanto, não é de minha responsabilidade caso não tenha lido e eu estrague alguma parte. Não obstante, tentarei não relevar o final ou qualquer detalhe que tire a graça do livro ao ler.]

Depois de severas indicações de muitas (- muuuuuuuitas mesmo -) pessoas, devo confessar que fiquei ansioso para ler esse livro. Acredito que seja o primeiro livro da literatura nacional que eu li. Adorei. Quero contar alguns detalhes que me chamaram a atenção no livro.

O grupo (ou gangue) é formado por crianças e adolescentes. É um grupo marginalizado pela sociedade e que comete inúmeros delitos. Logo de cara eu me lembrei do livro “Laranja mecânica”, que é possui algumas similaridades em seu grupo principal. Bem interessante!2

Fiquei com certo receio de não decorar os nomes, da mesma forma que eu tive dificuldade quando li “Crime e castigo”.3 Porém, não foi assim, pois o autor fez questão de dar apelidos simples para cada personagem. Não somente isso, mas os apelidos tinham uma ligação tenaz com a personalidade de cada menino. Por esse motivo facilitou muito a minha vida e deixou a história inteligível e agradável.

Outro ponto interessante que quero chamou a minha atenção é a variação das vocações que o autor destaca no grupo e como essa variedade ajuda na cumplicidade dos garotos. Cada um possui uma habilidade diferente, assim como em um time de futebol cada jogador possui uma função, não obstante, fundamental para que o time funcione corretamente. Subitamente lembrei dos jogos de RPG que joguei durante boa parte da minha infância, onde cada personagem possuía uma função diferente; um curava, outro atacava fisicamente, alguns atacavam magicamente e assim por diante. Mas pude reparar um padrão nesses grupos, quase sempre existe um forte fisicamente e bobão, ou seja, força física inversamente proporcional a sua inteligência. No caso desse livro o personagem era o João Grande, já na “Laranja Mecânica” era o Tosko4.

Quero destacar o julgamento errado de Deus, que o livro pode passar nos momentos de angústias passadas pelo Pirulito ao tentar roubar uma imagem de Jesus e na primeira conversa que o padre José Pedro tem com o cônego. Primeiro que Deus não é um Deus da condenação, existe a justiça, porém existe o amor também; segundo que Deus não se comunica apenas com os inteligentes. (Cônego julgava que o padre José Pedro estava cometendo pecado por não ter inteligência suficiente, ou seja, uma “falta” de comunicação com Deus.) Mas isso é uma opinião minha e totalmente pessoal.

Adorei quando uma chuva de pensamentos aparece quando a angústia é tomada pelos personagens, a maneira como o autor escreve é muito semelhante como Dostoiévski escreve. Simplesmente vai jogando as frases no ritmo como se aparecessem nos pensamentos dos personagens. São dominados pelo sentimento, por uma chuva de pensamentos cheios de emoções. Essa passagem da angústia fica nítida em diversas partes do livro: quando o Sem Perna entra no paradoxo de ficar do lado dos Capitães da Areia, ou de ficar no lado do amor e afeto dos novos pais; quando o padre termina a primeira conversa que teve com o cônego; e finalmente quando o Pedro Bala fica preso dentro da cafua.

Acredito que o principal tema do livro seja o julgamento errado e a vida difícil dos garotos. Livro mostra com clareza que o problema como muitos adultos julgam de maneira errada as crianças pobres. Não são apenas ladrões e vagabundos. Muitos dos personagens que tentam classificar elas ao verificar apenas algumas atitudes que eles praticam e já classificam como delinqüentes incorrigíveis. Mais do que tudo, eles são crianças, sendo que elas mesmas esquecem disso. Muitas vezes o autor apresenta o lado humano das crianças, quando existe falta de amor, carinho e compreensão. A carência das crianças que identificam quem eles realmente são, ou seja, meras crianças afinal de contas! Isso fica visível quando eles entram em um mundo lúdico ao verem o carrossel, ou quando a o Sem Perna recebe atenção e carinho de uma família. Conseguem esquecer completamente essa vida de assaltos que só foi injetada na vida delas por necessidade de sobrevivência em uma cidade tão injusta para com elas. (Não implica necessariamente que os delitos por eles cometidos sejam justificados pela vida injusta.)

Obviamente que o livro foi queimado pelo lado comunista que ele transmite. Já que Gertúlio Vargas estava no lado oposto. (Afinal, o personagem principal vira um revolucionário e essa é a ultima lição que o Estado Novo gostaria de ensinar para as pessoas naquela época.)

É isso. Um livro escrito faz muito tempo, não obstante, super atual. Muito bem escrito e deve cativar muitos jovens de hoje. Muitas aventuras e estratégias criativas estão no meio dessa trama principal.


1 Nota da orelha do livro “Capitães da Areia”, da editora “Campanhia Das Letras” (2009).
2 BURGESS, Anthony – A Laranja Mecânica.
3 DOSTOIÉVSKI, Fiódor – Crime e Castigo. Tive grande dificuldade ao ler esse livro em relação ao nome dos personagens. Além dos nomes serem russos, existem formas diferentes de pronunciar o mesmo nome que modificava completamente a grafia dos mesmos nessas variações. Em suma, um pesadelo para mim, que possuo uma fraca memória.
4 Na minha tradução estava com o nome de Tosko. Talvez existam outras variantes da tradução do nome do personagem.

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