por Ettienne Chevreuse Grimaud
Nada mais contrafactual do que a afirmação de que o Ser contemporâneo limita-se pela sua condição de vivente abscôndito no seio de uma sociedade multifacetada, culturalmente plural e pós-industrial. A contemporaneidade sempre adquire seu sentido na relação extra-temporal e não linear da oposição entre o agora, o antes e o depois. Mas a presença do Ser se dá em um meta-agora, impassível de ser subsumido à demarcação mecânica e linear da ciência moderna (refiro-me a ciência nascida no século XVII e que perdurou até o início do século XX). Com efeito, a ciência atual – como um rio que desaguou suas águas no turvo mar da incerteza, desvendando seu leito como o fluxo bipolar e ilusório de sujeito e objeto – desvela-nos o caos, a não-linearidade e a indefinibilidade nos quais a esseidade do Ser atuou e deu-se para si próprio e para a consciência.
Mas o Ser jamais se revelou na sua atualidade, visto que sua manifestação é sempre pré ou pós as certezas que julgávamos ter e que hoje apenas advêm como reminiscências de um tempo que ou já se foi ou ainda não chegou. Neste sentido é que é possível falar em uma reminiscência futura ou pós-presente. O homem contemporâneo é ignorante de sua condição, na medida em que credita ao fluxo temporal e ao locus de sua atuação o estatismo presente nos modelos supraculturais e metadiscursivos que controlam sua existência. É como se a essência do Ser, plurimanifestada na atualidade dos entes (no sentido da conversão aristotélica da potência ao ato), fosse um prêt-à-porter adquirido nos meios de difusão da racionalidade moderna.
A física quântica e a teoria do caos, a contragosto dos cientistas newtonianos, foram o irromper da pujança do Ser olvidado. O que era, apenas, agora é, em demasia. O Ser se mostra agressivamente, como o pulsar da violência inexorável do ser humano se mostra na violência da sociedade contemporânea. É o sforzando da esseidade do Ser que ganha a luta agônica contra a onticidade dos existentes. Resta apenas a ignorância daqueles que não suportam o rosto de Deus, como Moisés a esconder sua face frente o Todo Poderoso no Monte Sinai. A metáfora presente no Êxodo, que perdeu o sentido pelas interpretações religiosas, mostra-nos que o Ser se manifesta, mas o humano esconde a sua face. A ciência que queria ocultar a verdade do Ser, rebuçada sob o discurso do seu desvelamento, tira suas sandálias frente a sua auto-epifania, mas alguns preferem esconder a face.
O mundo é incerto, e o Ser atravessa moderníssimos aceleradores de partículas para lançar-se não contra os alvos, mas contra o rosto coberto pela racionalidade e pelos ícones da objetividade. A liberdade e a fluidez se mostram em sua mais pura forma. A contemporaneidade do Ser se torna inquestionável e passa ser a única certeza, ainda que incerta em si mesma, que irrompe do paradoxo de um mundo vicissitudinário submetido a um conceito castrador e inexistente: a Razão. O mal estar do mundo atual é o bem estar do Ser. A unidade entre Ser e humano está justamente na unificação concreta entre os termos Ser e humano. Por isso, nunca fomos seres humanos, mas humanos sem o Ser, por conseguinte pseudo-humanos, ou possivelmente pré-humanos. Fomos húmus que poderia ter fertilizado o solo para o desabrochar do Ser, mas húmus desencaixados do solo e suficientemente distante dele para não conseguir fecundá-lo. O ser humano é o Ser que fecunda. É o Ser que se torna húmus. Por isso, chamarmo-nos de ser humano, antes da fecundação, é o equívoco de toda a modernidade e da sociedade medieval. Pois a antigüidade, com seus mitos, seu atomismo, ou mesmo a sua busca pelo arché, buscava a semente, ainda que nos números pitagóricos, que poderia cair no solo unido ao húmus. O oráculo délfico soa-nos agora inteligível: “Conhece-te a ti mesmo”. Conhece-te e verás que não és ainda o humano que descobre o Ser.
E, justamente hoje, a semente do Ser se lança e brota. A sementeira está repleta de quarks, elétrons e fótons, comportando-se apenas probabilisticamente e de forma caótica. Da ciência brota o Ser. Da mesma ciência que ocultou o Ser. Mas a razão é o manto que cobre o rosto dos pré-humanos e mantêm-nos separados do solo que nos possibilitará ser húmus e, consequentemente, sermos ser e humano. Ser contemporâneo, portanto significa olhar de frente a aparição do Ser, sem o manto da razão a obnubilar-nos a vista, e não deixarmo-nos envolver com o visgo do passado moderno que nos impede de ver no mundo atual a auto-epifania diafânica do Ser que é em demasia.
O Ser que é, ao mesmo tempo não é, pois “é” é “Ser” conjugado, como verbo, no presente e a manifestação do Ser é extra-temporal, mesmo no hic et nunc de nossa presencialidade. Viver a contemporaneidade é viver o meta-agora. O verbo não manifesta a temporalidade do Ser, mas o Ser precisa traduzir-se na infinitude, ao mesmo tempo finita, da linguagem pré-humana e por isso aparece como verbo. O verbo, em seu sentido etimológico, se opõe a res e, por isso, é forma. Mas é forma de-formada na conjugação temporal do pré-humano, para a qual o mundo se limita ao tempo triáfano, ou seja manifestado no passado, no presente e no futuro. O Ser, na sua essência, não é triáfano, mas poliáfano e seu tempo pode traduzir-se, como verbo, em conjugações de uma linguagem verdadeiramente humana, donde faria sentido os paradoxos multitemporais de um passado-futuro, de um futuro-presente, de um presente-passado, etc. e mesmo de um passado-passado ou de um presente-presente. Na manifestação lingüística da multiafania do Ser, que se faz verbo, seria possível e necessário estender o tempo a um passado-passado-presente, um presente-presente-futuro, e assim ad infinitum.
Mas a dinâmica conservadora e opressora das estruturas sociais contemporâneas prefere abster-se do Ser, para preservar a ordem e o status quo. O homem contemporâneo é levado a abster-se do Ser, para não por em risco as estruturas de poder que se manifestam no cotidiano e simbolicamente, dando a ilusão de que os que dominam o mercado são superiores por si mesmos e em sua essência. A miséria de povos inteiros, no fundo é fruto da abstinência do Ser da sociedade contemporânea. O véu que nos cobre o rosto nos impede de ver quem está à frente, por isso atropelamos, matamos, desconsideramos o outro. Desvelar significa tirar o véu da razão e contemplar o Ser multiáfano. Com isso a cegueira seria curada e a sociedade não teria mais seus problemas que gritam e apelam à nossa consciência ética. A globalização é a extensão do véu e o assassinato do Ser que brota. No fundo, a destruição da natureza é a expressão da tentativa desesperada de matar o Ser que brota por si mesmo. Quando se agride a natureza está-se sublimando a vontade de se agredir o Ser. Por isso a sociedade contemporânea agride tanto a natureza, pois sente-se impotente na tentativa de matar o Ser que se manifesta à revelia do ideal moderno. É como a pessoa, que não podendo despejar o seu ódio em outra pessoa através da agressão física, gasta o tempo socando um saco de areia e assim descarregando sua raiva por sublimação.
Da mesma forma, a exclusão social e econômica que abafa a vida de bilhões de pessoas no mundo é a sublimação da vontade e da necessidade de se abafar o irrompimento do Ser. A abstinência do Ser impede que os pré-humanos se transformem em humanos. As análises ainda modernas e racionais da exclusão social, sem o querer, acabam também agredindo o desabrochar do Ser, quando buscam transformar a sociedade através dos velhos métodos de luta que caracterizaram a sociedade industrial. Pois subsumem o presente à idéia de um sistema (o capitalismo) e não permitem que o Ser se manifeste para além da idéia do econômico. Perseguem uma ratio explicativa da exclusão, quando é justamente a ratio que a produz. Atira-se para o lado errado e acaba acertando a si mesmo no ricochetear do labirinto de chumbo que deixa movimentos sociais perdidos no complicado enredo da abstinência do Ser. Destarte, bilionários que controlam a economia mundial e sindicalistas que pensam em lutar por uma nova ordem acabam sendo comparsas na destruição do Ser multiáfano e parceiros na distribuição da ignorância esclarecida (aufgeklärt) da sociedade moderna e iluminista.
É no universo pós-racional e pós-moderno que o ser humano se manifesta. E a filosofia deveria ser uma iamotecnia que prepararia os ungüentos lenitivos para as dores da ciência e a cura definitiva para a síndrome da abstinência do Ser. Ainda na rebordosa da tentativa frustrada de entender o mundo, a filosofia ressente-se de não cumprir uma promessa feita em público e seus divulgadores preferem pedir um tempo a mais para reconstruir a ponte que a levaria às luzes, mesmo sabendo que jamais conseguirão completá-la. No fundo eles esperam a morte que lhes absolverá da condenação de não terem servido pra nada, a não ser dançar e sapatear sobre o broto nascente do Ser. O filósofo pós-moderno deve dar o grito de independência da razão, às margens do rio que alimentará o ser humano contemporâneo para conviver com a multiafania do Ser. À filosofia cabe ser o pôr do sol no mês de ramadã, onde poderemos nos alimentar após o jejum de séculos e séculos de ocultamento do Ser.
Este texto poderia continuar indefinidamente, até constituir-se num livro. Mas ele foi apenas uma brincadeira com o estilo pós-moderno de filosofia, que apenas cuida da sua precisão sintática, sem querer falar de nada, costurando idéias sem o compromisso de fundamentá-las ou ordená-las através de um eixo central, além de querer buscar explicações de gabinete para problemas mundiais gravíssimos como a destruição da natureza e a exclusão social. Ele foi feito (inventado) em exatos e descontraídos 20 minutos (descontando os minutos destas últimas linhas) e não precisou de nenhuma pesquisa que lhe desse consistência. Quantos de nós já não se depararam com textos assim e se admiraram com eles? Quantos de nós não nos sentimos ignorantes por não compreendê-los totalmente? E quantos de nós não repetimos ordenadamente e ipsis litteris as frases bonitas encontradas, sem sabermos exatamente o seu sentido?
A propósito, o nome do autor é fictício e seu “currículo” é inventado para dar mais autoridade aos seus argumentos. O tradutor é, na verdade, o autor.